Por ocasião dos 20 anos da LASRA

02/04/2014

Postado por :admin ás 14:15

Lasra - Blog - 20 anos

Por ocasião dos 20 anos da Sociedade de Anestesiologia Regional Latino Americana (LASRA)
Pelo Prof. Dr. Mario J. da Conceição.

As técnicas de anestesia regional são conhecidas e praticadas no Brasil desde o final do século 19 (1898), iniciando-se com a anestesia subaracnóidea com cocaína. Acredita-se que o Dr Augusto Paes Leme, no Hospital da Misericórdia do Rio de Janeiro , realizou raquianestesias anteriormente aos relatos de Tuffier (1899). Curiosamente o Prof Candido Barata Ribeiro, pediatra, já no início do século passado (1900), aplicou inicialmente cocaína no espaço subaracnóideo de crianças com finalidade terapêutica e não anestésica ( tétano,hidrocefalia e pé torto), observando, após, o efeito anestésico capaz de permitir operações cirúrgicas nos membros inferiores. Daniel Almeida foi um dos grandes divulgadores da técnica no início do século XX, no Rio de Janeiro. A alta morbi-mortalidade nesta época, devido ao desconhecimento dos efeitos adversos da técnica, limitavam seu uso. A descoberta do bloqueio simpático ( 1912), como fator causal da hipotensão e seu posterior tratamento serviram para dar sustentação ao uso mais amplo da técnica.
 
A fundação da Sociedade Brasileira de Anestesiologia(SBA) e o lançamento da Revista Brasileira de Anestesiologia, na metade do século passado, abriram caminho para a discussão e divulgação do que se fazia no país na área da anestesiologia incluindo-se as técnicas de anestesia regional. Data desta época o uso da lidocaína a 5% hiperbárica ( pela adição da glicose) e da associação da adrenalina, sobretudo em obstetrícia e ortopedia. E em 1958 a raquianestesia foi incluída como tema oficial do IVo Congresso Brasileiro de Anestesiologia em Recife. Nos anos 1960 iniciou-se a ensino e a divulgação da raquianestesia por ilustres anestesiologistas brasileiros como Bento Gonçalves, Armando Fortuna, Affonso Zugliani e muitos outros. Nos anos 1970 chega a bupivacaina 0,5% hiperbárica. Os anestesiologistas brasileiros não se limitaram, como no resto do mundo, apenas às técnicas envolvendo o neuroeixo como a peridural lombar,torácica, caudal e a raquianestesia; os bloqueios de nervos periféricos também foram se popularizando em nosso pais desde os meados do século XX e hoje são praticados e ensinados com frequência tanto em adultos como em crianças, com e sem adjuvantes adicionados ao anestésico local. A Sociedade Brasileira de Anestesiologia foi a patrocinadora e editora do primeiro Atlas de Anestesia Regional publicado no Brasil e escrito totalmente por autores brasileiros. Alguns outros autores brasileiros publicaram livros textos preenchendo lacuna na língua portuguesa, neste assunto, como Luiz Imbeloni ( raquianestesia), Luis Delfino e Nilton B do Valle ( Peridural), James Manica em seu Anestesiologia Principios e Técnicas , incluiu vários capítulos abordando Anestesia Regional.
 
Sem a menor dúvida, assim como ocorreu nos anos 1950 com a fundação da SBA, no final dos anos 1990, mais precisamente 1996, surgiu um divisor de águas no ensino e divulgação da anestesia regional no Brasil e na América Latina. Por iniciativa de colegas paulistas, capitaneados pelo Prof Dr José Carlos Almeida Carvalho, que rapidamente conseguiu adeptos em todo o pais , foi fundada a Sociedade de Anestesiologia Regional Latino Americana, LASRA na sigla em inglês. A LASRA tornou-se o meio mais adequado para se criar uma comunidade, onde anestesiologistas podem manter contato sobre as últimas informações envolvendo anestesia regional;incentivando estes profissionais a participar de congressos e aperfeiçoar as várias técnicas de anestesia regional. Desde a sua fundação a LASRA já patrocinou e realizou 20 Congressos no Brasil dedicados exclusivamente as Técnicas de Anestesia Regional, alguns latino americanos e em 2004 um congresso mundial de Anestesia Regional, no Rio de Janeiro, ao qual compareceram mais de 900 colegas brasileiros e do exterior. O livro Anestesia Regional-Princípios e Prática, patrocinado e editado pela LASRA foi o primeiro livro texto abrangendo todos os aspectos da anestesia regional, desde a farmacocinética dos anestésicos locais até as várias técnicas e suas aplicações clínicas.
 
A LASRA também não ficou atrás no que tange aos avanços envolvendo a tecnologia aplicada a anestesia regional, com a intenção de aumentar a segurança dos procedimentos e a eficácia dos bloqueios. Assim como há muito tempo o estimulador de nervos periféricos tornou-se instrumento obrigatório para a realização dos bloqueios periféricos, tendo sido promovidos inúmeros cursos tipo “mãos na massa” para aprendizado das várias técnicas de bloqueios regionais utilizando aquele equipamento, nos dias atuais, da mesma forma, a LASRA em seus congressos anuais e em outros eventos no país, tem promovido,divulgado e ensinado a utilização da ultrassonografia aplicada à anestesia regional central e periférica.
 
Com apoio da LASRA , no Brasil existem várias iniciativas para a divulgação da anestesia regional e dois centros específicos dedicam-se ao treinamento divulgação e educação em anestesia regional. Um deles é o Curso Anual de Anestesia Regional realizado no Instituto de Pesquisa do Hospital Sirio Libanes, na cidade de São Paulo, sob a responsabilidade dos Drs Adilson Hamaji, (atual presidente da LASRA) e Pedro Paulo Kimachi .O outro centro em Florianópolis,SC, o NEPAR – núcleo de ensino e pesquisa de anestesia regional, sob a responsabilidade dos Drs Diogo Bruggemann da Conceição (atual 2o tesoureiro da LASRA) e Pablo Helaiel. No Brasil o NEPAR foi um dos centros pioneiros no uso da Anestesia Regional guiada por US.
 
A LASRA completa 20 anos de existência. Ainda que no seu início tenha sido rodeada de desconfianças, esta sociedade consolidou-se e hoje atrai todos aqueles interessados em anestesia regional que lhe proporcionam pujança e autoridade neste ramo da anestesiologia. Desde sua fundação na ideia pioneira do Prof Dr Jose Carlos Almeida Carvalho, muitos outros anestesiologistas que com ele dividiram e dividem a paixão pela anestesia regional, estiveram na presidência da entidade tratando de torna-la o marco fundamental desta prática no Brasil. Sem dúvida a LASRA ainda terá muito mais de 20 anos pela sua frente, a julgar pelo entusiasmo dos seus novos e jovens associados, mantendo sua missão de ensinar e divulgar a anestesia regional.
 
 
LASRA 2014
 
Neste ano, a LASRA promove o 20º Congresso de Anestesia Regional e Controle da Dor. O evento acontece entre os dias 21 e 23 de agosto e as inscrições já estão abertas.
 

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  • Raul Paulo Botelho de Andrade. disse:

    O Prof. Dr. José Carlos Almeida Carvalho foi nosso residente em Anestesiologia, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) oriundo dessa Faculdade de Medicina onde foi um excelente aluno.
    “Calu” carinhosamente identificado na época, sempre foi competente e empenhado no aprendizado da anestesiologia e se realisava ao transmitir seus conhecimentos aos mais novos.
    A nostalgia tomou conta de mim quando da leitura do texto do Prof. Dr. Mário J, da Conceição que me arremessou a um passado de vinte anos, quando na Ortopedia do H.C (COT) aqui em São Paulo, participamos do primeiro curso prático teórico de bloqueio periférico da LASRA, onde tive o privilégio de fazer alguns bloqueios do “Plexo Solar” ou Kullenkampf, e nessa época estavam também os anstesiologistas Dr.Waldir Cunha Junior, Dr. Mário Keniti Ynoe e o próprio Dr. José Carlos já liderava o evento dando as áulas práticas e fazendo também alguns bloqueios anestésicos.
    Vez por outra nos Congressos de Anestesiologia encontro com o Prof. Dr José Carlos que prática anestesiologia e também dá áulas, em Toronto no Canada, êle gosta das recordações.
    Infelizmente temos pessoas por lá que não tiveram essa vivência e suas histórias são diferentes.
    Já estou chegando aos dez anos de aposentadoria da grande e Escola Médica que devo muito, o Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, foram 30 anos excelentes.
    Um saudosismo muito salutar.
    Dr. Raul Paulo Botelho de Andrade – CRM 25459

  • maria Simonetti disse:

    Professor Mario Conceiçâo
    Tanto ou quanto sua voz é ouvida no silêncio propiciado pela sua respeitabilidade, os seus escritos sê-lo-iam fixados indelevelmente nas retinas… E são, se lidos.
    É muito bonita e sentimental sua carta comemorativa dos 20 anos da nossa sociedade ( estava presente, nos bastidores, acompanhando aquela memorável reunião!!!).
    Professor, se me permite, faltou-lhe contudo, enxertar a evolução que se seguiu pelo dominio da estereoisomeria, partindo da resolução da bupivacaína no Reino Unido até a rebeldia estereoisomérica que faz nascer a simocaína ou NovaBupi aqui no Brasil.Menos pelo mérito da inovação embora atualmente a inovação esteja sendo reclamada como prioridade desenvolvimentista mundial; mais, por ser esse capítulo farmacológico-a mistura não equimolar da bupivacaína-,o composto que está fazendo parte da nossa historia pois Deus quis que nascesse brasileiro.Por isso não se pode olvidar o arsenal farmacológico desde que seguramente haveriam dificuldades no entendimento do bloqueio do impulso nervoso, ou anestesia, desde que os progressos alcançados dependem, sem dúvida, desse entendimento.
    Portanto, queridissimo Professor, faça com que os jovens continuem acorrendo ás suas falas particularmente sobre esse produto ( a última munição anestésica local obtida em todo o mundo…).Porem, é preciso, que eles fixem esse dado da realidade.Mas para tal só sendo reforçados com a sua credibilidade eles fixarão na retina essa façanha tupiniquim ás custas de seus escritos.
    Contunuo com o leitmotiv da minha vida:os anestésicos locais.
    Um abraço afetuoso e aguardando a publicação da minha carta ao Editor na RBA, despeço-me
    Maria Simonetti